Trabalho prisional e a transformação através do Projeto Castelo de Bonecas

O relógio marca 10h03 quando nossa equipe chega à Penitenciária Feminina Júlia Maranhão, em João Pessoa. O som do trabalho prisional já se faz presente no local, onde as máquinas de costura do Projeto Castelo de Bonecas funcionam a todo vapor.

Seguimos os protocolos de segurança que nos guiam por um caminho de descobertas. Trata-se de uma jornada cheia de esperança e em busca de novas oportunidades. Essas histórias ganham vida na série de reportagens “Castelo de Bonecas: o poder transformador de uma Pena Justa”.

O trajeto da reintegração social

Ultrapassamos os pesados portões de ferro e deixamos para trás os muros e as grades. Do outro lado, o cenário muda completamente ao nos depararmos com um grande pátio aberto.

Caminhamos por uma passarela cercada por vegetação e iluminada pelo sol. A visão transmite paz e reflete a expectativa de um verdadeiro encontro com a reintegração social.

O som constante das máquinas em movimento preenche o ar. Em seguida, somos recebidos por 16 artesãs do projeto. Elas demonstram timidez e olhares desconfiados, cientes do preconceito que costuma acompanhar seus passados.

Após explicar a intenção da nossa visita, o clima muda. As mulheres percebem que, naquele momento, são vistas como trabalhadoras em busca de um recomeço digno.

A voz e a visão de quem busca uma nova chance

Selena Gomes, de 38 anos, é a primeira a conversar conosco. Ela participa do Castelo de Bonecas há dois anos e demonstra firmeza na voz. A artesã projeta um futuro em que a liberdade vá muito além de portões abertos.

“Eu percebo que muitas das minhas colegas chegam aqui sem terem sido socializadas, elas passaram uma vida toda sendo marginalizadas”, responde com profundidade.

Para Selena, ressocializar vai além de olhar para frente. Significa permitir que essas mulheres se enxerguem com dignidade pela primeira vez.

“O papel da ressocialização não é só de tornar a pessoa apta a reconhecer o seu erro e a querer uma mudança de vida, mas muitas vezes tem sido o de fazer com que a pessoa entenda que ela é merecedora de uma vida melhor, é digna e que pode estar sim em sociedade, cumprindo seu papel como cidadã”, expõe Selena.

Ela reforça a importância de a sociedade compreender o processo de mudança sem rótulos definitivos.

“O que eu gostaria que a sociedade entendesse é que, sim, nós, eu e as outras mulheres que estamos aqui, cometemos erros e nós precisamos assumir a responsabilidade dos erros que cometemos. Mas esses erros não definem quem nós somos, não vai definir a nossa vida inteira”, reflete a artesã.

A política de ressocialização no sistema penitenciário

Promover essa transformação é o compromisso de João Rosas, gerente de Ressocialização do Sistema Penitenciário da Paraíba. Ele defende que iniciativas desse tipo resgatam a cidadania de quem antes vivia na invisibilidade.

“Um dos grandes objetivos da política de ressocialização é justamente romper com a invisibilidade social dessas pessoas e reconhecer que, por trás de cada indivíduo privado de liberdade, existe uma história, uma trajetória e, principalmente, uma possibilidade de reconstrução”, afirma João Rosas.

A estrutura pública do estado apoia essa visão. A Paraíba conta com 62 unidades prisionais, das quais 60 possuem oficinas produtivas. Cerca de 1.800 pessoas em regime fechado participam diariamente de atividades laborais e educativas.

O programa abrange ações de capacitação profissional, cultura, esporte, lazer, saúde e empreendedorismo.

“Não se trata apenas de oferecer uma ocupação, mas de criar oportunidades reais de transformação por meio da qualificação profissional, das oficinas produtivas, do empreendedorismo, da geração de renda, da atenção integral à saúde física e mental e da reconstrução dos vínculos familiares e sociais”, completa o gerente de ressocialização.

A estrutura e expansão do Projeto Castelo de Bonecas

O Projeto Castelo de Bonecas se consolida como uma das principais ações da Secretaria de Estado da Administração Penitenciária. A iniciativa foca na qualificação técnica e na autonomia financeira das participantes.

“Seu principal objetivo é promover a inclusão produtiva de mulheres privadas de liberdade por meio da qualificação profissional, do empreendedorismo e da geração de oportunidades concretas de trabalho e renda”, considera João Rosas.

Criado em João Pessoa, o projeto se expandiu em 2021 para a Penitenciária Feminina de Campina Grande. Embora mantenham a mesma proposta, cada unidade possui focos de produção distintos.

Na capital, a confecção é voltada para as tradicionais bonecas de pano. Já em Campina Grande, a produção inclui artigos para o lar, como sousplats, e peças em amigurumi.

“O funcionamento do projeto está baseado em um processo contínuo de formação técnica e profissional. As participantes recebem capacitação que envolve conteúdos teóricos sobre empreendedorismo e atividades práticas, especialmente na área de corte e costura, desenvolvendo competências técnicas, disciplina, criatividade e autonomia para o exercício de uma atividade produtiva”, pontua João Rosas.

Impactos duradouros e apoio institucional

O objetivo final de todo esse trabalho é evitar a reincidência criminal e devolver cidadãs preparadas à sociedade.

“Que essas pessoas não retornem ao sistema prisional, que possam reconstruir seus vínculos, contribuir com a sociedade e construir uma nova história baseada em trabalho, educação, autonomia e cidadania”, conclui o gerente.

Essa metamorfose conta com o apoio do Poder Judiciário por meio do plano Pena Justa, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em parceria com o Tribunal de Justiça da Paraíba. Juntas, essas ações transformam a realidade de mulheres como Selena Gomes e mostram o verdadeiro sentido da justiça.

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