
O Tribunal de Justiça de São Paulo realizou um evento pioneiro focado em qualificar a cobertura jornalística de violência contra a mulher, reunindo dezenas de comunicadores e operadores do direito.
A iniciativa debateu práticas essenciais para evitar a revitimização das mulheres.
Além disso, abordou estratégias informativas que inibam a reprodução de condutas violentas na sociedade.
Abertura do evento e o papel da notificação responsável
O evento contou com a participação de lideranças do Judiciário paulista, que ressaltaram o papel da comunicação no combate aos crimes de gênero.
O presidente do TJSP, desembargador Francisco Eduardo Loureiro, destacou a relevância de encorajar denúncias precoces:
“Nosso grande desafio hoje é diminuir a subnotificação mediante uma procura quase ativa, estimulando a mulher a fazer previamente a comunicação da violência. Lembrando que o feminicídio é o ápice. Normalmente, essa mulher já sofre violência doméstica há anos, de forma contínua. A forma como se notifica esse tipo de crime é absolutamente relevante para evitar que ele se repita ou que se estimule a sua repetição”, afirmou Loureiro.
O diretor da EPM, desembargador Ricardo Cunha Chimenti, também ressaltou a abertura para parcerias:
“Sabemos da importância do tema. Sintam-se à vontade para propor novas ações conjuntas para que, em cooperação, mudemos essa lógica extremamente nociva”, afirmou.
Diálogo interinstitucional e responsabilidade social
A integração entre os diferentes poderes e os veículos de imprensa foi apontada como pilar fundamental no combate à violência.
A coordenadora da Comesp, desembargadora Flora Maria Nesi Tossi Silva, pontuou que a informação preventiva ajuda a barrar novos crimes.
A vice-coordenadora da instituição, desembargadora Maria de Fátima dos Santos Gomes, reforçou a urgência de uma rede integrada de proteção.
Pela Defensoria Pública, a defensora Ana Carolina Oliveira Golvim Schwan Moreira destacou a dimensão coletiva do problema:
“Há muito tempo, a violência doméstica não é um assunto privado. Todos nós temos responsabilidade e contamos muito com essa troca para que a informação chegue de forma adequada e possa salvar vidas”, frisou.
A organização também contou com a atuação da juíza Adriana Vicentin Pezzatti de Carvalho, da diretora Rosangela Maria Moraes Sanches e da coordenadora Maria Cecília Abbati dos Santos.
Painéis e análises técnicas sobre o tema
As palestras trouxeram abordagens jurídicas, psicológicas e jornalísticas para orientar o trabalho cotidiano das redações.
Aspectos legais e proteção à mulher
A juíza Teresa Cristina Cabral Santana detalhou conceitos de gênero e instrumentos da Lei Maria da Penha.
A magistrada explicou que medidas protetivas podem ser concedidas mesmo sem o boletim de ocorrência prévio.
Além disso, ressaltou que dar credibilidade ao relato da vítima é passo indispensável para garantir sua segurança.
O efeito imitativo e o papel do jornalismo
A prevenção ao efeito copycat (imitativo) na divulgação de feminicídios foi analisada pela juíza Luciana Lopes Rocha, do TJDFT.
A magistrada alertou que o detalhamento excessivo dos métodos ou a justificativa dos crimes podem induzir novas agressões.
Ela defendeu que as notícias deem foco ao histórico e à escalada de violência prévia sofrida pela vítima.
Complementando a visão mediática, a jornalista Mari Leal, do Instituto AzMina, enfatizou a responsabilidade social na escolha das fontes e no espaço concedido aos relatos.
O encontro encerrou-se com dinâmicas práticas, estudo de casos reais e espaço para esclarecimento de dúvidas dos participantes.